quinta-feira, 31 de outubro de 2019



Adaptação do texto de Martha Medeiros 
A morte devagar
Estudo da Finitude da Vida.


Hoje acordei bem cedo e resolvi fazer uma caminhada bem urbana ou se preferirem: “um belo programa de índio”. Nada de preparação e organização somente um aviso prévio para não fugir as responsabilidades vai aviso: _Sairei para caminhar e devo chegar somente ao entardecer.

 Havia muito tempo que não caminhava, seria uma excelente oportunidade de me exercitar e passar por alguns lugares já conhecidos sem a pressa e o costume usual que marcam o ordinário cotidiano de todos os dias e dos últimos anos para mim.

Queria viver e sentir novas impressões da paisagem, dos lugares e das pessoas. Vesti um agasalho leve que nada curioso e calcei um tênis bem confortável, foi quando me lembrei de uma mochila a muito esquecida em um canto do guarda roupas, abasteci a mesma com uma garrafa de agua, uns poucos documentos e alguns trocados caso fica-se com fome.

Sim. Eu quero ser um transeunte a passar despercebido na multidão, quero passar pelas calçadas, parar antes aos sinais vermelhos e esperar dos sinal verde, dar preferencia para o ciclista apressado, olhar para os dois lados da rua antes de atravessar, levar umas bolsadas ainda na calçada das senhoras com seus filhos ao colo ou presos solicitamente as mãos de suas mães ou ainda fragar os despercebidos que saem das lojas e os que estacionam na calçadas atrapalhando o fluxo, bem é ou não um programa de Tolo?

Então plano é...?
Não ter plano deixar rolar.

Não sei onde nem quando li isso:

Morre lentamente quem não troca de ideias, não troca de discurso, evita as próprias contradições.

Morre lentamente quem vira escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto e as mesmas compras no supermercado.

Quem não troca de marca, não arrisca vestir uma cor nova, não dá papo para quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru e seu parceiro diário.

É bem verdade que muitos não podem comprar um livro ou uma entrada de cinema.

Mas é bem verdade também que muitos podem, e ainda assim alienam-se diante de um tubo de imagens que traz informação e entretenimento, mas que não deveria, mesmo com apenas 14 polegadas, ocupar tanto espaço em uma vida.

Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pingos nos is.
Há um turbilhão de emoções indomáveis onde há a descoberta e que justamente resgatam: o brilho nos olhos, sorrisos e soluços, colocam um coração aos tropeços, criam novos sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não acha graça de si mesmo.

Morre lentamente quem destrói seu amor-próprio. Pode ser depressão, que é doença séria e requer ajuda profissional. Então fenece a cada dia quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem não trabalha e quem não estuda, e na maioria das vezes isso não é opção e, sim, destino: então um governo omisso pode matar lentamente uma boa parcela da população.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projeto antes de iniciá-lo, não perguntando sobre um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.

Morre muita gente lentamente, e esta é a morte mais ingrata e traiçoeira, pois quando ela se aproxima de verdade, aí já estamos muito destreinados para percorrer o pouco tempo restante.

Que amanhã, portanto, demore muito para ser o nosso dia. Já que não podemos evitar um final repentino, que ao menos evitemos a morte em suaves prestações, lembrando sempre que estar vivo exige um esforço bem maior do que simplesmente respirar.

Obrigado Dona Martha M.

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