Adaptação do texto de Martha
Medeiros
A morte devagar
Estudo da
Finitude da Vida.
Hoje acordei bem cedo e resolvi
fazer uma caminhada bem urbana ou se preferirem: “um belo programa de índio”.
Nada de preparação e organização somente um aviso prévio para não fugir as
responsabilidades vai aviso: _Sairei para caminhar e devo chegar somente ao
entardecer.
Havia muito tempo que não caminhava, seria uma
excelente oportunidade de me exercitar e passar por alguns lugares já
conhecidos sem a pressa e o costume usual que marcam o ordinário cotidiano de
todos os dias e dos últimos anos para mim.
Queria viver e sentir novas
impressões da paisagem, dos lugares e das pessoas. Vesti um agasalho leve que nada
curioso e calcei um tênis bem confortável, foi quando me lembrei de uma mochila
a muito esquecida em um canto do guarda roupas, abasteci a mesma com uma
garrafa de agua, uns poucos documentos e alguns trocados caso fica-se com fome.
Sim. Eu quero ser um transeunte a
passar despercebido na multidão, quero passar pelas calçadas, parar antes aos
sinais vermelhos e esperar dos sinal verde, dar preferencia para o ciclista
apressado, olhar para os dois lados da rua antes de atravessar, levar umas
bolsadas ainda na calçada das senhoras com seus filhos ao colo ou presos
solicitamente as mãos de suas mães ou ainda fragar os despercebidos que saem das
lojas e os que estacionam na calçadas atrapalhando o fluxo, bem é ou não um
programa de Tolo?
Então plano é...?
Não ter plano deixar rolar.
Não sei onde nem quando li isso:
Morre lentamente quem não troca
de ideias, não troca de discurso, evita as próprias contradições.
Morre lentamente quem vira
escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto e as mesmas compras
no supermercado.
Quem não troca de marca, não
arrisca vestir uma cor nova, não dá papo para quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da
televisão o seu guru e seu parceiro diário.
É bem verdade que muitos não
podem comprar um livro ou uma entrada de cinema.
Mas é bem verdade também que muitos
podem, e ainda assim alienam-se diante de um tubo de imagens que traz
informação e entretenimento, mas que não deveria, mesmo com apenas 14
polegadas, ocupar tanto espaço em uma vida.
Morre lentamente quem evita uma
paixão, quem prefere o preto no branco e os pingos nos is.
Há um turbilhão de emoções
indomáveis onde há a descoberta e que justamente resgatam: o brilho nos olhos,
sorrisos e soluços, colocam um coração aos tropeços, criam novos sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a
mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto
atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos
sensatos.
Morre lentamente quem não viaja,
quem não lê, quem não ouve música, quem não acha graça de si mesmo.
Morre lentamente quem destrói seu
amor-próprio. Pode ser depressão, que é doença séria e requer ajuda
profissional. Então fenece a cada dia quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem não
trabalha e quem não estuda, e na maioria das vezes isso não é opção e, sim,
destino: então um governo omisso pode matar lentamente uma boa parcela da
população.
Morre lentamente quem passa os
dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projeto
antes de iniciá-lo, não perguntando sobre um assunto que desconhece e não
respondendo quando lhe indagam o que sabe.
Morre muita gente lentamente, e
esta é a morte mais ingrata e traiçoeira, pois quando ela se aproxima de
verdade, aí já estamos muito destreinados para percorrer o pouco tempo
restante.
Que amanhã, portanto, demore
muito para ser o nosso dia. Já que não podemos evitar um final repentino, que
ao menos evitemos a morte em suaves prestações, lembrando sempre que estar vivo
exige um esforço bem maior do que simplesmente respirar.
Obrigado Dona Martha M.
Nenhum comentário:
Postar um comentário